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| Não ouço mais o som dos sinos! (Arte por Flávio Ribeiro) |
Muitas vezes nos deixamos levar por uma espécie de "saudosismo barato" que procura enaltecer coisas do passado depreciando seus similares do presente, talvez apenas porque elas tenham sido importantes em algum momento de nossas vidas, mas não necessariamente melhores!
Fato é que certa vez tive uma grata surpresa quando conversei com uma senhora de idade e chegamos nesse assunto: o saudosismo. Foi então que eu comecei a falar com ela das mazelas trazidas pelo progresso e que alteraram muito a forma de viver das últimas décadas como o aumento da violência, da poluição, de como as coisas eram mais fáceis antigamente, do cavalheirismo, da elegância da moda dos anos 40-50, etc. Até para dar um charme legal a nossa conversa, dei uma de poeta dizendo que o progresso havia não só descaracterizado a cidade, mas também tornou-a muito barulhenta já que não conseguíamos mais ouvir o canto dos pássaros, o som dos sinos das igrejas, o cantarolar de um músico na praça e que sentia muito por não ver mais o coreto tocando animado e que nem mais as estrelas em sua plenitude conseguia ver!
Foi quando surpreendentemente a doce senhora me colocou nos trilhos: - Flávio, cai na real, eu tenho 92 anos de idade e só tem um saudosista aqui, ou seja, você meu filho! Olha, na minha época de menina tudo era bem mais difícil, a vida era um verdadeiro terror, a violência sempre aconteceu só não era noticiada, não tinha luz, o saneamento era péssimo, passamos por guerras, tinha muita gente se vestindo de forma cafona (encasacados em pleno calor do Rio de Janeiro), o cavalheirismo existia mas se transformava em machismo dentro de casa, guardávamos a comida em armários porque não tinha geladeira, não tinha TV, passávamos a roupa com um ferro à carvão (sabe o que é isso?), não tinha máquina de lavar, fazíamos casamentos obrigadas, o leite vinha de caminhão (tínhamos que correr atrás dele e encher uma garrafinha de vidro e levar para casa), os poucos que tinham aparelhos de som giravam uma manivela para fazer rodar o disco que chiava com um cão com asma, nem podia votar meu filho! Hoje não, que beleza é o progresso, colocamos a comida e ela fica pronta rapidamente no microondas, meu ferro de passar tem até botão de vapor, tomo banho quentinho (economizando água é claro), se quiser tenho mais de 100 canais de tv em alta definição, minha coleção de discos que empoeiravam na estante cabem direitinho num player de MP3, posso usar a internet e falar com familiares que estão do outro lado do planeta! Oras, com tanta coisa boa e vivendo o passado que eu já vivi você vem me falar que não houve mais o som dos sinos? Me poupe, compre um cd de natal que você vai ouvir muitos sinos tocando!
Após a suave gargalhada da vovó, eu como professor de história passei a pensar seriamente em rever os meus conceitos! Fui zoado! Que aula de História Viva!
| Ferro de passar à vapor, bastante difundido no Brasil nos anos 50 |



